AS CALÇADAS DAMINHA RUA (Todos fazem parte de um poderosíssimo cartel que – de tão bem articulado – é institucionalizado e, nas democracias, consegue o aval da sociedade através do voto)
De Mr. Macleim emAgo 20, 2010 | EmSALADA ARRETADA | 1 Feedback »
As Calçadas da Minha Rua
Todos fazem parte de um poderosíssimo cartel que – de tão bem articulado – é institucionalizado e, nas democracias, consegue o aval da sociedade através do voto

Seria óbvio demais, factualoide demais, tecer comentários sobre as sessões de humor-negro inerentes ao horário político no rádio e na TV. Como se já não bastasse sua obrigatóriedade. Mas, enfim, é realmente lamentável que tenhamos tão pouca qualidade e conteúdo, nenhuma representatividade e tanta falsa representatividade, sub-representatividade. Das duas uma: ou, de fato, perderam totalmente a noção do ridículo; ou, pior ainda, perniciosamente, se apropriam da certeza de que falam e mentem para uma massa acrítica, obrigada, “democraticamente”, a votar.
Mas, deixemos para os comentaristas políticos – suas fofocas e factóides de coluna – que espremam o caldo dessa coisa. Particularmente, prefiro refletir sobre o efeito colateral resultante dessas espécies de políticos que hora tramam no rádio e na TV. Pois bem, há mais de uma semana não me sai do pensamento a imagem e o diálogo que tive com uma família que está, literalmente, morando nas calçadas da minha rua. Eles são um casal de trabalhadores rurais e seus dois filhos menores: a menina tem apenas quatro anos e o menino, seis. A situação em que estão vivendo os transforma numa espécie de outdoors vivo. Ou melhor, eles são o marketing ultra-real do compromisso social das elites, seus políticos engravatados e gestores perfumados, arrogantes, e, geralmente, mal-intencionados ao ocuparem as mais altas instâncias do poder.
A história desses alagoanos – nas calçadas da minha rua –, na realidade, é comum; é banal. Não pelos tristes fatos que os levaram a esta condição. Mas, sobretudo, pela freqüência com que se repetem para milhares de famílias usurpadas nos seus direitos básicos de cidadania. Tão cruel quanto à essência dos fatos é a frieza e o descaso com que esses seres humanos são observados e ignorados pelos demagogos instalados nababescamente em gabinetes refrigerados que, no conforto seguro dos seus luxuosos imóveis, longe das intempéries, livres da indiferença, acolhidos pela hipocrisia, dão as costas para o efeito colateral resultante da sua perversa avareza. É essa gente que, sem dúvida, deve ser responsabilizada pela manutenção da desgraça daquela outra gente, nas calçadas da minha rua. É essa mesma gente – dos gabinetes e carros de luxo – que consegue dormir tranqüilamente nos finos lençóis e travesseiros recheados de insensibilidade, onde sonham com novos métodos ilícitos que, impunemente, lhes farão acumular riquezas na proporção exata em que aquela gente – das calçadas da minha rua – acumula sofrimento e humilhação.
Conheço uma mulher que costuma dizer “vi Jesus” todas às vezes que ela imagina ter tido um insight. Pois bem, infelizmente, ainda não consegui ver Jesus nem ao menos ter insights. Aliás, acho que não tenho merecimentos para isso. Porém, tudo ficou bem mais claro quando percebi o significado da política profissional e o real objetivo dos seres que a exercem. Não tenho mais nenhuma dúvida, apesar da aparência radical de tal conceito. Ou seja: todos fazem parte de um poderosíssimo cartel que – de tão bem articulado – é institucionalizado e, nas democracias como a nossa, consegue o aval da sociedade através do voto, oferecendo a ilusão de que quem detém o controle somos nós, o povo.
Aparentemente, a parte transparente desse poderoso cartel foi dividida em partidos e, entre eles, se estabelece uma espécie de acordo tácito para a alternância do poder. A Máfia, o Cartel de Medelin, a Al Qaeda e tantas outras organizações explicitamente criminosas são pinto diante desse poderoso cartel. Até porque, essas organizações criminosas trafegam, financiam e invariavelmente encontram abrigo no poderoso cartel engravatado. Infelizmente, para o povo, não há como escapar da influência perniciosa desta periculosa organização. No entanto, ainda nos resta a possibilidade de dizer não. Não! Não desejo vender a alma para entrar nesse “negócio”! Não! Não quero abrir mão de convicções éticas e morais para, em troca, pertencer e usufruir das benesses do poderoso cartel! Não! Não vou fazer parte disso para, deliberadamente, ter que viver em omissão! Não! Não aceito helotismo em minha vida! Recuso-me a estar do lado podre da laranja, enquanto nossa estrutura política permanecer um cartel.
Claro, agindo assim, por mais paradoxal que seja, existirá sempre a possibilidade sombria de um dia vir a ser mais um daqueles habitantes das calçadas da minha rua. Porém, cá prá nós, prefiro esse risco a mudar certas convicções que, uma vez abandonadas, não me permitirão ser quem sou.
No Dia dos Maçons, régua e compasso!!! No +, MÚSICAEMSUAVIDA!!!
Pulo do Gato: O posicionamento mudo da cidadania alagoana é ensurdecedor (%)
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